segunda-feira, 8 de maio de 2017

Esquema de fraude em concursos captava 'clientes' em redes sociais e cursinhos, diz polícia na PB

Suspeitos foram presos com ponto eletrônico durante prova do concurso do MPRN (Foto: Lucas Sá/DDF João Pessoa)
Os “clientes” da quadrilha suspeita de fraudar pelo menos 60 concursos públicos em seis estados do Nordeste eram contatados principalmente em cursinhos e por meio redes sociais, segundo informou o delegado de Defraudações e Falsificações (DDF) de João Pessoa, Lucas Sá, nesta segunda-feira (8). O grupo cobrava até R$ 150 mil por 'kit completo' de aprovação em concursos e mais de 500 aprovados pagaram R$ 18 milhões à quadrilha, em 6 estados do Nordeste. O esquema foi desarticulado pela Operação Gabarito.
O esquema foi desarticulado pela Polícia Civil da Paraíba no domingo (7). Segundo a polícia, 19 pessoas foram presas, entre elas dois irmãos em um condomínio de luxo, apontados como líderes do grupo e já aprovados em 29 concursos. Outros envolvidos foram presos durante um concurso do Ministério Público do Rio Grande do Norte.
“São muitas as maneiras, mas as principais são pelo Facebook, WhatsApp e indicação de pessoas de cursinhos. Vários desses professores [presos] são professores de cursinho. Então eles acabam indicando a organização para os alunos desses cursos e fazendo a proposta de ingressar no esquema fraudulento”, disse o delegado.
O delegado afirma que as fraudes começaram em 2005, em concursos na Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte, Sergipe e Piauí. “Tomando como base o menor valor informado até o momento, podemos concluir que, no mínimo, a organização consegue obter a quantia de R$ 300 mil por concurso".
Muitos dos "clientes" procuravam o esquema por meio de indicações de amigos. Mas também havia casos em que os integrantes do esquema entravam em contato com pessoas que estavam em grupos de concursos e cursinhos em redes sociais, que eram "clientes" em potencial, para fazer a proposta, segundo o titular da DDF.
Lucas Sá informou que, entre os documentos, também foram apreendidos gabaritos e provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2016. A Polícia Civil ainda vai investigar se também houve fraude no exame.
'Kit completo' de aprovação custava R$ 150 mil
De acordo com as investigações, o grupo cobrava até R$ 150 mil para vender o "kit completo" de aprovação. Os suspeitos fraudavam documentos para facilitar empréstimos para pagar a fraude, diplomas para ingresso no cargo e gabarito da prova.
Segundo o delegado, para o esquema ser executado o grupo precisava que pelo menos dez candidatos do concurso comprassem o gabarito. “É cobrado, em média, o valor correspondente a 10 vezes o salário inicial do cargo pleiteado, de maneira que cada candidato interessado repassa a quantia de R$ 30 mil a R$ 150 mil para a organização criminosa”, explica Lucas Sá.
O esquema funcionava por meio de escutas e transmissões eletrônicas durante a aplicação das provas. Parte dos suspeitos ficavam na casa onde os líderes do grupo foram presos, em João Pessoa, e eram responsáveis por receber as informações das provas de outros integrantes do grupo que faziam as provas. “Eles repassavam as informações para os ‘professores’, que respondiam as questões e mandavam os gabaritos para os candidatos”, explica Lucas Sá.
Além dos suspeitos presos na capital paraibana, outros integrantes foram detidos no domingo no Rio Grande do Norte, durante a aplicação das provas do concurso público do Ministério Público do Rio Grande do Norte. De acordo com Lucas Sá, os suspeitos estavam com pontos eletrônicos no ouvido, que foram apreendidos durante a operação.
“Diversos suspeitos ocupam atualmente cargos públicos em importantes instituições, além de ter acesso frequente a outros servidores, aprovados por meio da atuação da organização criminosa, motivo pelo qual conseguiam acesso à estrutura de poder de diversos órgãos públicos e instituições”, completa Lucas Sá.

Irmãos já acumulavam 29 aprovações
Os dois irmãos apontados pela Polícia Civil como líderes da quadrilha acumulam, juntos, 29 aprovações em concursos. Flávio Nascimento Borges, de 34 anos, e Vicente Fabrício Borges, de 32 anos ainda seriam responsáveis por uma empresa de fachada situada na cidade de Santa Rita, na Região Metropolitana de João Pessoa. De acordo com o delegado, a empresa seria utilizada para possível lavagem de dinheiro dos valores obtidos com o esquema. “No endereço cadastrado como sendo da empresa, não existe nenhuma referência ao prédio, sendo que sequer existe o número do prédio apontado como sendo endereço”, explica.
Flávio Nascimento foi aprovado em 15 concursos, incluindo os da Prefeitura Municipal de Campina Grande, em 2015, e o da Polícia Militar de Alagoas, no qual ele acumula, respectivamente, os cargos de fiscal de obras e de cabo da PM. Em um dos concursos, para a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o suspeito chegou a ser classificado e aprovado em dois cargos.
Ainda de acordo com a Polícia Civil, o irmão de Flávio Nascimento, Vicente Borges, chegou a ser aprovado em 11 concursos e também acumula cargo de policial militar em Alagoas com o de servidor da Prefeitura Municipal de Santa Rita. A polícia vai investigar se a classificação dos dois nos 29 concursos teria sido feita de forma fraudulenta. 

Fonte: G1 Paraíba

Nenhum comentário:

Postar um comentário